04/03/2009

Igreja quer impedir aborto a criança de 9 anos

Uma criança brasileira de 9 anos foi violada pelo padrasto e está grávida de gémeos. A igreja brasileira quer impedir o aborto.«A menina engravidou de maneira totalmente injusta, mas devemos salvar vidas», alegou o arcebispo de Olinda e do Recife, citado pela Globo. A tenra idade da criança e o facto de estar grávida de gémeos motivaram a que os médicos classificassem a gravidez como de risco. Esta denominação possibilita a interrupção legal da gravidez, pretendida pela família. Em resposta, a igreja brasileira garante que vai conduzir o caso para o Ministério Público para que a interrupção da gravidez não seja efectuada. A gravidez foi descoberta quando a criança, alegadamente abusada desde os 6 anos, se queixou de dores na barriga e foi levada pela mãe ao hospital. Suspeita-se que o padrasto tenha praticado os mesmos actos sobre a irmã mais velha da menina, de 14 anos. O homem foi preso na semana passada, quando se preparava para fugir.
Deixo uma questão aos meus estimados leitores:
Neste caso qual seria a sua inclinação de voto?
Votaria a favor ou contra o aborto?
Porquê?

8 comentários:

João Carreira disse...

Caro Luís silva,

Respondendo como cidadão, perdoe-me, mas julgo que as perguntas estão mal formuladas.
Por um lado, a questão ocorre num país estrangeiro, se tais factos fossem em território português, o aborto é permitido quer na vigência da actual Lei... bem como, na vigência da Lei anterior.

Já aqui escrevi, em tempo oportuno, que não sabia em quem iria votar, visto que só numa situação objectiva e clara poderia manifestar a minha opinião.

Quando foi do referendo, depois de ler a proposta de Lei e de naturalmente reflectir, optei conscientemente por votar Não. Ouvi ainda os dois lados dos vários movimentos e sinceramente, acabei por encontrar até várias mentiras do lado do SIM. Se as tivesse encontrado do lado do NÃO, igualmente ficaria chocado, mas por acaso deu-lhes para não mentir...e não foram os vários comentários, destes ou daqueles que influiram na minha decisão. Achei curial votar Não após ler a proposta de Lei e analisar as possibilidades, coerências e incoerências da Lei.

Face aos dias de hoje, quando se continuam a fechar clínicas clandestinas ( pois nos meios pequenos toda a gente sabe quem faz aborto e a sanção social é francamente mais cruel do que a sanção penal), quando não há qualquer tipo de sanção para quem pratique 12 abortos por ano ( se duvidar da possibilidade da prática deste número de aborto, ligue para o Hospital Dona estefânia e esclarecer-se-á, assim com dir-lhe-ão quantos casos destes já aconteceram) com dinheiros públicos, quando outras doenças e cuidados paliativos estão muito mais desprotegidos, quando a política de natalidade e conexamente a de trabalho são conhecidas, eu naturalmente voltaria a votar Não, mas sempre sob reserva do caso concreto, a que a Lei nunca atende. Aliás, não para influenciar ninguém, mas para manifestar as minhas dúvidas, escrevi sobre o assunto ao Porta da Estrela que muito gentilmente foi publicado...

Na questão controvertida, sou católico praticante e como tal tenho uma responsabilidade acrescida, mas creio que São Tomás de Aquino em tempos escreveu que "Deus é Razão" e a razão diz-me que há uma excepção à regra. É contra natura obrigar alguém a ter alguém dentro de si fruto de quem que violou a vontade da vítima e a vontade de Deus, pois Deus não aceitará de forma alguma a violação daquilo que é de mais sagrado (a vida humana), e tudo o que resultar dessa violação deve ficar sem efeito, salvo vontade da vítima em contrário. Não cabe a ninguém decidir sobre uma violação a não ser à vítima, pois ninguém evitou que a própria fosse alvo de violação e portanto ninguém se deve manifestar em assunto que não lhe diz respeito.
Recomendo sinceramente, como católico, a leitura à Igreja Brasileira de todas as obras de São Tomás de Aquino, de Santo Agostinho, do Padre António vieira, do Padre Manoel da Nóbrega, do Padre José de Anchieta ( estes três últimos ligados à criação do Brasil) e aguardo anciosamente que a Igreja do Brasil saia da Idade Média...

Com estima e admiração,

João

João Carreira disse...

Caro Luís Silva,

Perdoe-me o extenso texto.

Um abraço,

João

João Carreira disse...

Caro Luís Silva,

...Perdoe-me ainda o "anciosamente"; o "que" a mais e o "com" em vez de "como", em certos pontos do texto.

Embora já não sofra desde os 12 anos de dislexia, deficit de atenção e hiperactividade, que infelizmente em mim é de origem genética, mantenho-me ambidestro e, de vez em quando, quando escrevo depressa e no calor do momento alguma coisa sai sempre errada...

Uma vez mais perdoe e gostava de ver aqui também a sua opinião sobre este assunto.

Com estima e admiração,


João

Senense endiabrado disse...

Caro João Carreira,

Deus é exactamente o contrário de razão. Teria de preencher todo este espaço e mais algum deste blog de Luís Silva para lhe lembrar todos os actos sem razão e razoabilidade do passado e do presente, passando pela inquisição, pela cumplicidade com o holocausto, pela cumplicidade com regimes totalitários como o do Estado Novo. Não quer isto dizer que tudo seja mau, porque há muito trabalho social que é feito por religiões não só em Portugal, mas um pouco por todo o mundo. Mas acredito piamente que o mundo seria um espaço bem mais feliz, razoável e instruído sem os medos, os ódios, os pecados e a vergonha que as religiões transportam.
O aborto é mais um caso da realidade quotidiana que foi levada para o campo da moral religiosa e, diga-se, que em última instância não só o aborto seria condenado pela igreja católica como também a masturbação. O problema é que não é possível, nem humanamente exequível, controlar 6 mil milhões de pessoas nos seus afazeres íntimos e nas suas práticas sexuais individuais. Pudesse a igreja e fá-lo-ia sem pestanejar para controlar os desígnios dos livros sagrados.
Senense endiabrado

LS disse...

Meus senhores neste caso a ciencia falou mais alto que a religião, não se percebendo porém porque é que a Igreja decidiu excomungar a menina e os médicos em vez de excomungar o padrasto que praticou hediondo crime. Há situações que não se percebem por muito que queiramos perceber.

João Carreira disse...

Caro Senense Endiabrado,

Muito Obrigado pela sua opinião nesta discussão que aqui surgiu graças à iniciativa de Luís silva.

Perdoe continuar a defender que Deus é Razão e de achar que no primeiro parágrafo confunde Deus com parte da história da Religião Católica. Infelizmente, essa história existiu e não podemos fugir à verdade. Mas convém lembrar, como aliás o fez o actual Papa Bento XVI, que antes da Inquisição as questões religiosas eram julgadas de forma bem pior, pois não existia sequer um processo inquisitório que explicasse de forma cabal a acusação e a pena da vítima.

A Igreja é feita por homens e Deus não tem religião. Existem várias religiões e apenas um Deus, pelo menos para mim que sou crente e católico.

Dentro da própria Igreja Católica, existem muitas ideias e convicções, conforme o número de pessoas que fazem a Igreja de Cristo, tendo por base a doutrina da Igreja e os valores e pilares em que a Igreja assenta. Veja-se, por exemplo, a quantidade de ordens religiosas. Mas os homens são de carne e osso, fruto de uma educação, de uma sensibilidade e de uma emoção; constroem-se com a família, com os amigos, no meio em que vivem, com a prosperidade e com as dificuldades que os atingem e na atitude face a estas. Foi na Igreja católica que acabaram os ordálios e graças ao Direito Canónico que surgiu o ramo do Direito da Família. Antes, tudo o que existia a este respeito, não era mau...era péssimo.

Pessoalmente, pertenço a uma família que tem e teve pelo menos nas últimas 5 a 6 gerações, membros que pertencem e pertenceram a Ordens Religiosas. Cresci numa casa, em Loriga, onde todos os dias rezavam o terço (rezava-se, pois actualmente a casa está vazia na maior parte dos dias do ano), bem como nas casas de todos os familiares conhecidos. Todos os dias, como católico, tento viver conforme fui educado e assistir à celebração da Missa.

Por isso, não foi de ânimo leve que comentei este texto e a notícia em causa. Tenho vários familiares que apesar da educação católica, decidiram abandonar a Religião Católica e, nem por isso, são piores, simplesmente decidiram fazer o seu caminho de vida fora da religião, mas de acordo com as suas convicções e do que seria melhor para eles e para os outros. Nem por isso, são menos queridos pelos seus familiares. Aliás, é uma família bastante conservadora, sendo igualmente bastante democrática, onde só está quem quer estar e com quem quer estar.

Essencialmente, no meu emotivo comentário, estava a minha visão de cidadão, pensei também no que sentiria caso a criança em causa fosse da minha família ou minha filha. Talvez não matasse o sujeito que violou. Talvez até lhe perdoasse. Afinal, lembro-lhe que o Perdão também é uma das principais características da Igreja Católica e dos ensinamentos da Bíblia, de todos os evangelistas e santos da Igreja. Aliás, creio que quem não ama não pode perdoar.

Custa-me, no entanto, que depois do mal feito, tenha que a vítima colher, sustentar e suportar em si o resultado de um crime inqualificável. Naturalmente que são vidas. Naturalmente que não foram fruto do amor de duas pessoas. Naturalmente que como crente acredito que tal não teriam surgido se Deus não o quisesse. Defende a Igreja que estavam em causa duas vidas de dois gémeos. Será, no entanto, que não estivesse em causa a vida da vítima? Será natural que crianças de 9 anos tenham filhos? Deverão todas as vítimas de estupro conceberem filhos dessa violação?
...Para além, das questões que me surgiram depois das excomunhões anunciadas e suportadas pelo Vaticano.

São muitas dúvidas que como católico tenho e como católico, junto da Igreja e da religião a que pertenço, procurarei respostas.

Lamento que mais opiniões não tivessem surgido, mas foi muito bom o que apareceu.

Perdoem, uma vez mais, o extenso texto e Muito Obrigado pela vossa opinião e um Muito Obrigado ao Luís Silva por colocar o tema aqui.

Um Abraço,

João

Senense disse...

Caro João,

Compreendo que historicamente as religiões do livro foram não só causa como também consequência do seu tempo e certamente a barbárie foi superior no passado face ao presente. Muitas vezes as religiões e seitas confundiram-se com as culturas de regiões, mas parece-me que desde a invenção das religiões, e aqui não as do livro mas as outras predecessoras que nasceram no crescente fértil com a agricultura, o globo vive num espartilho de valores morais que chocam muitas vezes com a felicidade e as soluções científicas. O aborto é discutível, embora defenda claramente a opção individual de decidir o destio da sua barriga, mas a recente decisão de Obama de impulsionar o uso de células estaminais para terapêuticas humanas é uma fresca vitória do estado laico face ao entrave religioso às soluções humanas de felicidade. Outros existiriam se fossemos até Roma e lembrassemos o que se passou com uma doente em coma que a religião queria manter viva, ultrapassando a lei que é feita por todos os cidadãos e não por facções religiosas e sensibilidades próprias.
Respeito quem toma um deus por seu, quem segue as práticas e costumes de qualquer livro melhor ou pior redigido, mas acredito que a invenção das religiões é que foi o pecado original de um mundo que já tem imenso com que se preocupar e com que sonhar acordado. Basta olhar para o lado e ver que deus tem largas costas para o bem e um ínfimo dorso para o mal.

Bem haja João,
Senense

Anónimo disse...

Passei uma vista de olhos apressada por esta discussão, mas pelo que percebi, creio que estamos todos de acordo em considerar exagerada a condenação da criança e dos médicos que (muito provavelmente) a salvaram da morte.

Acho que a questão da dicotomia Deus/Igreja não é para aqui chamada: quem excomungou não foi Deus, foi a Igreja Católica brasileira.

No meu entender, esta decisão do bispo brasileiro vem na linha da inquisição, das guerras santas, dos medos e dos ódios e de todos os fundamentalismos que representam o pior que as igrejas, como construções humanas que são, têm em si.

Claro que há o outro lado das igrejas (no caso da Igreja Católica, há o lado verdadeiramente cristão). Mas esse lado não o vi aqui neste assunto, a não ser nas declarações de um dos médicos excomungados que disse que, exactamente por ser católico (logo, cristão) voltaria a fazer o mesmo.

Saudações